Jejum intermitente estimula o comportamento sexual ao reduzir serotonina no cérebro


A relação entre alimentação e comportamento sexual sempre despertou curiosidade, mas poucos estudos exploraram com profundidade os mecanismos neuroquímicos por trás dessa conexão. Um estudo recente publicado na Cell Reports Medicine lança luz sobre como o jejum intermitente pode influenciar o comportamento sexual por meio da modulação de neurotransmissores fundamentais, como o triptofano e a serotonina. A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada por Valentina Camerino, investigando os efeitos do jejum em camundongos, com implicações interessantes para o entendimento da sexualidade humana e da interação entre dieta e neurobiologia.


Uma hipótese antiga revisitada

Historicamente, já se observava que restrições alimentares intensas podiam aumentar certos comportamentos de busca, inclusive os sexuais. A hipótese central do estudo parte dessa observação: ao reduzir a disponibilidade de triptofano no sistema nervoso central, o jejum poderia diminuir os níveis de serotonina, liberando os freios inibitórios que essa substância exerce sobre comportamentos motivados, como a atividade sexual.


O papel da serotonina no comportamento sexual

A serotonina é um neurotransmissor conhecido por sua função reguladora no cérebro. Níveis elevados estão associados à saciedade, ao relaxamento e à inibição de comportamentos impulsivos. Embora isso possa ser benéfico em muitos contextos, também significa que a serotonina pode suprimir a libido e o impulso sexual. Diversos medicamentos antidepressivos que aumentam a serotonina (como os ISRS) são conhecidos por provocar disfunção sexual como efeito colateral.


No cérebro, o triptofano é o precursor da serotonina. Sua disponibilidade depende diretamente da dieta e do transporte para o sistema nervoso central. Os pesquisadores partiram da ideia de que, ao reduzir os níveis de triptofano circulante por meio do jejum intermitente, seria possível limitar a síntese de serotonina no cérebro e, com isso, alterar comportamentos mediados por esse neurotransmissor.


O modelo experimental: jejum intermitente em camundongos

O estudo utilizou camundongos machos jovens, submetidos a ciclos de jejum intermitente durante três semanas. O grupo experimental passou 24 horas sem acesso ao alimento, seguidas de 24 horas com acesso livre (regime alternado), enquanto o grupo controle manteve alimentação ad libitum. O comportamento sexual foi então avaliado com base em uma série de testes padronizados: número de tentativas de cópula, tempo até a primeira interação sexual, número de ejaculações e outras métricas comportamentais.


Os resultados foram surpreendentes: o grupo submetido ao jejum intermitente apresentou aumento expressivo na atividade sexual. Eles iniciaram o comportamento copulatório mais rapidamente, realizaram mais tentativas de monta e mantiveram maior persistência na atividade, mesmo diante de rejeições.


Mecanismos bioquímicos: triptofano e serotonina

Para entender os mecanismos por trás desses comportamentos, os pesquisadores mediram os níveis de triptofano e serotonina no cérebro e no sangue. Após o jejum, os níveis de triptofano plasmático estavam reduzidos. Mais importante, a concentração de triptofano no líquido cefalorraquidiano também diminuiu, assim como os níveis de serotonina em regiões específicas do cérebro associadas à regulação do comportamento sexual, como o hipotálamo.


Além disso, os animais em jejum apresentaram alterações na expressão de transportadores de aminoácidos e de genes relacionados à sinalização serotoninérgica. A via de transporte para o cérebro, competitiva entre o triptofano e outros aminoácidos neutros, parece ter sido influenciada pela mudança na composição plasmática dos aminoácidos após o jejum, o que reduziu ainda mais a entrada de triptofano no cérebro.


A serotonina como “freio” e o jejum como “liberação”

Os achados sugerem que a serotonina atua como um inibidor do comportamento sexual, e que sua redução — induzida por menor disponibilidade de triptofano — remove esse freio, permitindo maior expressão do comportamento motivado sexualmente. Isso não significa que o jejum "aumenta a libido" de forma simplista, mas sim que modula a sensibilidade e a responsividade do sistema nervoso aos estímulos sexuais.


Interessantemente, quando os pesquisadores administraram triptofano diretamente nos camundongos em jejum, os níveis de serotonina foram restaurados e o aumento no comportamento sexual foi revertido. Isso confirma o papel causal da via triptofano-serotonina na mediação dos efeitos observados.


Implicações para humanos

Embora o estudo tenha sido realizado em camundongos, os mecanismos metabólicos e neuroquímicos descritos são altamente conservados entre mamíferos. Os autores especulam que, em humanos, o jejum intermitente também poderia modular a serotonina e, portanto, afetar o comportamento sexual, especialmente em indivíduos com disfunções sexuais associadas ao excesso de serotonina, como pode ocorrer com o uso de certos antidepressivos.


Além disso, o estudo pode ajudar a compreender por que mudanças no padrão alimentar afetam a motivação sexual, e por que algumas pessoas relatam aumento da libido durante protocolos de jejum ou dietas cetogênicas, que também reduzem a disponibilidade de triptofano no cérebro.


Considerações finais

Este estudo inovador mostra que o jejum intermitente pode alterar profundamente o comportamento sexual por meio de mecanismos bioquímicos bem definidos. Ao reduzir a entrada de triptofano no cérebro, o jejum diminui os níveis centrais de serotonina, facilitando a expressão do desejo sexual. Mais do que uma curiosidade fisiológica, esses achados revelam uma via potencial para intervenções terapêuticas em disfunções sexuais, além de ampliar o entendimento sobre como o estado nutricional influencia a motivação e o comportamento.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.xcrm.2024.101044

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.