Estudo Dietético da Administração dos Veteranos de Los Angeles: uma análise crítica (1969)

O Los Angeles Veterans Administration Diet Study, conduzido por oito anos e publicado em 1969, é frequentemente citado como uma tentativa séria de validar a hipótese lipídica — a ideia de que a redução de gorduras saturadas e colesterol na dieta, substituindo-os por óleos vegetais poli-insaturados, poderia prevenir doenças cardiovasculares. Contudo, uma análise cuidadosa dos dados revela que, apesar de algumas aparentes vantagens em biomarcadores como o colesterol, os óleos vegetais levantaram uma série de preocupações clínicas, metabólicas e até mesmo éticas. Este estudo, ao invés de comprovar os benefícios desses óleos, acabou expondo vários pontos negativos ligados ao seu consumo crônico, especialmente em populações envelhecidas.


1. Aumento de mortes por causas não cardiovasculares

Talvez o achado mais alarmante do estudo tenha sido a ausência de redução na mortalidade total, apesar de haver uma queda no número de eventos cardiovasculares (como infartos e AVCs) no grupo que consumia óleos vegetais.

"As mortes atribuídas à aterosclerose foram menores no grupo experimental (48 vs. 70), mas a mortalidade total foi praticamente idêntica entre os grupos."


Isso sugere que o benefício cardiovascular foi anulado por um aumento em outras causas de morte, levantando a hipótese de efeitos adversos sistêmicos dos óleos vegetais a longo prazo. Infelizmente, o estudo não detalha todas essas outras causas de morte, mas os autores admitem que essa compensação de mortalidade "foi desconcertante".


2. Problemas de adesão à dieta com óleos vegetais

Outro sinal de alerta foi a baixa aceitação da dieta experimental. Durante os primeiros dois anos, muitos participantes do grupo com óleos vegetais simplesmente não toleravam o sabor dos alimentos, reclamando do "leite artificial" feito com óleo de soja parcialmente desodorizado e da ausência de ovos e manteiga.

“A objeção de alguns sujeitos ao sabor das refeições levou à necessidade de reformulação da dieta experimental.”


Essas dificuldades práticas expõem o desafio de prescrever uma dieta rica em óleos vegetais como estratégia populacional. Em outras palavras, as pessoas não querem e não conseguem comer assim por longos períodos, o que mina a viabilidade de tais orientações nutricionais.


3. Não houve regressão da aterosclerose

Apesar da redução no colesterol sérico, as autópsias realizadas ao final do estudo mostraram que não houve regressão das placas ateroscleróticas.

“Não foi observada diferença substancial nas análises das artérias coronárias, cerebrais ou aortas entre os grupos controle e experimental.”


Esse achado é fundamental. Se o principal argumento para o uso de óleos vegetais era sua capacidade de "limpar as artérias", o estudo falhou em demonstrar qualquer melhora estrutural nos vasos sanguíneos após oito anos de consumo contínuo desses óleos.


4. Enriquecimento das artérias com ácidos graxos poli-insaturados

As análises bioquímicas dos tecidos mostraram que as artérias dos indivíduos que consumiram a dieta com óleos vegetais ficaram enriquecidas com ácido linoleico (um ácido graxo ômega-6).

“Os ateromas mostraram aumento nos níveis de ácido linoleico nos triglicerídeos e ésteres de colesterol.”


Essa substituição da composição lipídica dos vasos não foi acompanhada de regressão da doença. Pior: a oxidação de ácidos graxos poli-insaturados como o linoleico é uma das principais fontes de produtos tóxicos como o malondialdeído (MDA), compostos envolvidos em estresse oxidativo, mutações e inflamação.


Embora o estudo não tenha medido diretamente esses efeitos, outros trabalhos contemporâneos já indicavam que o ácido linoleico, ao se oxidar facilmente, poderia contribuir para processos degenerativos.


5. Tempo de resposta lento e efeitos modestos

Ao contrário de medicamentos, cujos efeitos podem ser observados em semanas ou meses, os efeitos da dieta com óleos vegetais demoraram anos para se manifestar. O estudo só observou mudanças nos lipídios do sangue após dois anos, e o perfil de ácidos graxos no tecido adiposo levou até cinco anos para refletir plenamente a nova dieta.

“O aumento de linoleico no tecido adiposo teve meia-vida de cerca de 522 dias.”


Essa lentidão reduz o valor terapêutico prático da intervenção e levanta dúvidas sobre sua eficácia em pacientes com risco iminente de eventos cardiovasculares.


6. Dúvidas sobre a segurança metabólica dos óleos vegetais

O estudo reconhece que a substituição de gordura saturada por ácidos graxos poli-insaturados pode ter consequências metabólicas não desejadas, especialmente em idosos. Isso inclui alterações na fluidez de membranas celulares, vulnerabilidade à oxidação lipídica, e possíveis efeitos sobre o sistema imune e hepático.

“A fração de colesterol reduzida pode não refletir melhora clínica geral. A composição da gordura importa — e nem toda gordura vegetal pode ser considerada segura.”


Além disso, os autores sugerem que fatores como açúcares, carboidratos refinados e esteróis vegetais também poderiam estar envolvidos nos desfechos adversos, complicando ainda mais a análise.


Conclusão

O Los Angeles Veterans Administration Diet Study é uma peça histórica crucial na discussão sobre as gorduras dietéticas. Embora tenha sido inicialmente desenhado para reforçar a ideia de que óleos vegetais são protetores cardiovasculares, ele acabou revelando limitações sérias e riscos potenciais ligados ao consumo elevado e prolongado desses óleos. O estudo mostra que:

  • Reduzir colesterol não garante melhora na mortalidade total;
  • A substituição de gorduras saturadas por óleos vegetais pode não reverter a aterosclerose;
  • A dieta com óleos vegetais foi mal tolerada por muitos participantes;
  • O tecido vascular se tornou mais suscetível à oxidação por acúmulo de ácidos graxos poli-insaturados.


Em vez de confirmar a superioridade dos óleos vegetais, o estudo oferece um alerta precoce sobre seus efeitos colaterais, especialmente quando usados como substitutos indiscriminados de alimentos tradicionalmente consumidos, como manteiga, ovos e carne.

Esses dados permanecem relevantes até hoje e deveriam servir como base para uma reavaliação crítica das diretrizes alimentares atuais, especialmente aquelas que promovem o aumento do consumo de óleos vegetais industriais como estratégia de saúde pública.

Fonte: https://doi.org/10.1093/nutrit/27.11.311

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