Revisão sistemática dos efeitos da dieta pobre em carboidratos no desempenho físico atlético


Quando se fala em desempenho esportivo, a alimentação é um dos pilares mais discutidos, especialmente entre atletas que buscam não apenas resultados estéticos, mas também performance máxima. Dentre as abordagens nutricionais mais debatidas, a dieta pobre em carboidratos, também chamada de cetogênica, desperta curiosidade e resistência na mesma medida. Mas o que diz a ciência quando se trata dos efeitos dessa dieta na performance de atletas? Uma revisão sistemática publicada por Zeeshaan H. Sultan e Diana Speelman, em fevereiro de 2025, traz luz ao tema, com foco em dados experimentais extraídos de 19 estudos envolvendo diferentes modalidades esportivas.

Embora os efeitos da dieta cetogênica variem conforme o tipo de atividade física e a duração da intervenção, o estudo revela que há benefícios consideráveis, sobretudo quando a adaptação à nova estratégia alimentar é realizada de forma prolongada e consistente.

Adaptação é a chave

Um dos pontos centrais identificados pela revisão foi a influência do tempo de adaptação na resposta do organismo ao novo perfil metabólico imposto pela dieta cetogênica. Diferente das dietas tradicionais, a dieta pobre em carboidratos (Low-Carbohydrate Diet LCD) promove uma mudança drástica na principal fonte de energia: sai a glicose e entra a cetona. No entanto, essa transição não ocorre do dia para a noite.

Estudos com duração inferior a uma semana, por exemplo, apresentaram resultados limitados ou mesmo negativos, especialmente em atividades de resistência e desempenho anaeróbico. Isso ocorre porque o corpo ainda não teve tempo suficiente para se adaptar plenamente à utilização de corpos cetônicos como principal combustível energético.

Por outro lado, os estudos com intervenções de oito a doze semanas revelaram um cenário bem mais favorável. Foi nesse intervalo que surgiram os maiores ganhos, especialmente em força muscular e resistência à fadiga. Em uma das pesquisas analisadas, atletas que seguiram uma LCD por dez semanas apresentaram aumento significativo tanto no supino quanto no agachamento, dois dos principais marcadores de força de membros superiores e inferiores. Outro estudo identificou elevação no volume total de treinamento e no número de repetições semanais após seis semanas de cetogênica entre indivíduos treinados em resistência.

Esses resultados sugerem que o tempo de intervenção é um fator determinante para que os benefícios metabólicos da dieta cetogênica se traduzam em vantagens concretas no desempenho físico.

Força muscular preservada e até ampliada

A preservação da massa muscular em dietas com baixo carboidrato é uma preocupação recorrente, mas os dados revisados demonstram que, com uma ingestão adequada de proteínas e um período de adaptação bem estruturado, a força não só é mantida como pode ser incrementada. Em diversas intervenções com duração de oito semanas ou mais, observou-se melhora significativa nos testes de uma repetição máxima (1RM) tanto em supino quanto em agachamento.

Além disso, o desempenho em exercícios como o salto com contramovimento também melhorou em mulheres treinadas após oito semanas de dieta, indicando benefícios também para explosão muscular e potência.

Esses achados contradizem a crença de que uma dieta cetogênica prejudicaria automaticamente a capacidade de ganhar força, e mostram que, para atletas cujo objetivo envolve hipertrofia, força ou performance muscular localizada, a LCD pode ser uma estratégia válida — especialmente quando bem planejada e respeitando um tempo adequado de transição.

Potencial metabólico vantajoso

Outro ponto positivo da LCD é a flexibilidade metabólica que ela pode promover. Ao treinar o corpo para funcionar com uma fonte de energia alternativa (gorduras e cetonas), o atleta pode experimentar maior estabilidade energética em treinos prolongados, menor oscilação glicêmica e, em alguns casos, maior clareza mental e recuperação mais eficiente, conforme relatado em estudos clínicos prévios.

Esses aspectos são particularmente úteis para atletas que buscam melhorar composição corporal, reduzir percentual de gordura ou manter performance durante fases de déficit calórico. Além disso, para esportes de longa duração ou eventos que envolvem múltiplas sessões por dia, a estabilidade na oferta energética pode ser uma vantagem.

Considerações finais

Embora nem todos os estudos revelem ganhos expressivos com o uso da dieta cetogênica, principalmente quando adotada por períodos curtos, o conjunto de evidências reforça que, com uma adaptação bem conduzida — idealmente superior a cinco semanas —, a LCD pode ser uma ferramenta eficaz para atletas que priorizam força, resistência muscular e melhor composição corporal.

É importante destacar que a resposta à dieta cetogênica é individual e deve ser alinhada com os objetivos específicos do atleta, o tipo de modalidade praticada e o período da temporada. Em fases de menor exigência aeróbica ou de preparação física com foco em força e potência, a LCD mostra-se uma estratégia viável e segura, desde que acompanhada por profissionais qualificados.

Assim, longe de ser apenas uma moda passageira ou uma dieta restritiva, a abordagem cetogênica, quando respeitada em sua fisiologia e tempo de adaptação, revela potencial real de contribuição ao desempenho esportivo — especialmente nos aspectos relacionados à força e à resistência muscular.

Fonte: https://doi.org/10.7759/cureus.79166

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