Relação da proporção de ingestão de carboidratos com eventos cardiovasculares em japoneses com diabetes mellitus tipo 2
Por muitos anos, pessoas com diabetes tipo 2 foram orientadas a controlar sua alimentação para evitar complicações. Mas uma pergunta permanece: qual é a melhor composição da dieta para reduzir o risco de doenças cardiovasculares e mortalidade? Um estudo recente conduzido no Japão lança luz sobre essa questão, trazendo dados reveladores sobre o papel dos carboidratos na saúde de quem vive com diabetes.
Um estudo detalhado e de longa duração
Entre 2013 e 2014, pesquisadores japoneses recrutaram 731 adultos com diabetes tipo 2, sem histórico de doenças cardiovasculares. Eles acompanharam esses participantes por uma média de 7,5 anos, coletando informações não apenas sobre o que comiam, mas também sobre hábitos de vida como atividade física, qualidade do sono e saúde mental. Durante esse tempo, 55 participantes sofreram eventos cardiovasculares ou faleceram.
Os pesquisadores utilizaram questionários validados para avaliar o padrão alimentar dos participantes, com foco especial no percentual de energia vinda de carboidratos, proteínas e gorduras. Eles também calcularam escores específicos de dietas com baixo teor de carboidrato, diferenciando fontes de proteína e gordura animal ou vegetal.
Mais carboidratos, mais risco
O principal achado do estudo foi claro: quanto maior o consumo proporcional de carboidratos, maior o risco de eventos cardiovasculares e de mortalidade por qualquer causa. Mesmo após o ajuste para fatores de risco tradicionais — como níveis de colesterol, triglicerídeos e pressão arterial — essa associação permaneceu estatisticamente significativa.
Especificamente, os participantes no quartil mais alto de ingestão de carboidratos (mais de 58% da energia total vinda de carboidratos) apresentaram mais de cinco vezes mais risco de eventos cardiovasculares em comparação com aqueles no quartil mais baixo (menos de 48%). Esse aumento de risco foi progressivo, sugerindo uma relação quase linear entre o excesso de carboidratos e problemas cardíacos.
Dietas com menos carboidrato e mais alimentos de origem animal parecem protetoras
Por outro lado, os participantes com dietas que combinavam menor ingestão de carboidratos com maior proporção de proteína e gordura — especialmente de origem animal — apresentaram menor risco cardiovascular e de mortalidade. Esse resultado contrasta com achados de estudos ocidentais, onde dietas ricas em gordura animal frequentemente são associadas a maior risco.
Essa diferença pode ser explicada pelo tipo de gordura animal consumida no Japão, onde há maior presença de peixes e frutos do mar, em vez de carnes processadas ou vermelhas em excesso. Além disso, a quantidade total de carne consumida pelos participantes era relativamente baixa, o que pode ajudar a explicar os efeitos positivos observados.
Outro dado curioso foi a associação entre maior consumo de ácidos graxos saturados (SFAs) e menor risco cardiovascular. Isso contraria diretrizes atuais que recomendam limitar esse tipo de gordura. Os autores sugerem que essa discrepância pode estar relacionada à origem alimentar dos SFAs — por exemplo, laticínios — e ao padrão alimentar geral da população japonesa.
Considerações e limites do estudo
Apesar dos resultados consistentes, o estudo tem limitações. Por ser observacional, não pode provar causa e efeito. Além disso, a avaliação da dieta foi feita por questionário, o que pode introduzir erros de memória ou subestimação do consumo real. E embora o estudo tenha durado vários anos, o número total de eventos foi relativamente pequeno.
Ainda assim, os dados são relevantes e oferecem um alerta: pessoas com diabetes tipo 2 no Japão, e possivelmente em outros países com dieta similar, podem se beneficiar ao reduzir o consumo de carboidratos, especialmente arroz — que foi a principal fonte de carboidrato associada ao risco cardiovascular.
E o que isso significa na prática?
A principal mensagem é que não basta apenas contar calorias. O tipo de nutriente consumido faz diferença. Em vez de focar apenas em restringir gorduras ou seguir dietas padronizadas, talvez o caminho mais seguro para pessoas com diabetes seja adotar uma alimentação com menos carboidratos e mais proteínas e gorduras saudáveis, preferencialmente de fontes naturais.
Essa abordagem, segundo os dados do estudo, pode ajudar a proteger o coração e aumentar a expectativa de vida. É importante lembrar, no entanto, que qualquer mudança alimentar deve ser feita com acompanhamento profissional, especialmente em quem vive com uma condição crônica como o diabetes.
Fonte: https://doi.org/10.1210/clinem/dgaf179
Nenhum comentário: