Dieta rica em gorduras e pobre em carboidratos está associada à proteção contra autoimunidade no sistema nervoso central
A esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória e neurodegenerativa que afeta o sistema nervoso central. Apesar de décadas de pesquisa, ainda não se conhece exatamente a causa dessa condição debilitante. Sabe-se, porém, que ela é amplamente influenciada por fatores ambientais, entre eles a dieta. Um novo estudo publicado na revista Advanced Science lança luz sobre como a composição dos macronutrientes na alimentação pode modular o risco e a progressão da EM.
A equipe de pesquisadores liderada por Laurence Macia, da Universidade de Sydney, investigou tanto dados populacionais quanto experimentos em modelos animais para avaliar o impacto das dietas ricas em carboidratos, proteínas ou gorduras sobre a autoimunidade no sistema nervoso central. Utilizando uma abordagem estatística robusta conhecida como “geometria nutricional”, os cientistas analisaram dados de cerca de 150 países entre 1990 e 2018. Descobriram que quanto maior o consumo de carboidratos em uma população, maior a incidência e prevalência de esclerose múltipla. Por outro lado, uma maior ingestão de gordura estava associada a uma menor carga da doença.
Para validar essa correlação, os pesquisadores realizaram experimentos com camundongos induzidos a desenvolver encefalomielite autoimune experimental (EAE), modelo animal clássico da esclerose múltipla. Os animais foram divididos em grupos e alimentados por semanas com dietas isocalóricas, ou seja, com a mesma quantidade total de calorias, mas com diferentes proporções de macronutrientes: uma dieta rica em carboidratos (75% de energia), outra rica em proteínas (60%) e uma terceira rica em gorduras (75%).
Os resultados foram surpreendentes. Camundongos que seguiram a dieta rica em carboidratos apresentaram sintomas mais intensos da doença, com inflamação significativa no sistema nervoso central, altos níveis de citocinas inflamatórias e maior infiltração de células imunológicas nos tecidos nervosos. Por outro lado, os animais alimentados com a dieta rica em gorduras não desenvolveram sintomas da doença, apresentando completa proteção contra a autoimunidade.
Essa proteção foi atribuída a vários mecanismos. Metabolicamente, os camundongos com dieta rica em gorduras apresentaram acúmulo de lipídios nas células imunológicas, um fenômeno associado à produção da citocina anti-inflamatória IL-10. Essas células também mostraram uma ativação reduzida e um perfil mais tolerogênico, ou seja, menos propensas a desencadear respostas autoimunes.
Além disso, os dados indicam que a dieta rica em gordura pré-condiciona as células T (importantes para a resposta imune) a se diferenciarem em células T reguladoras (Treg), que são fundamentais para manter a tolerância imunológica. Este efeito foi confirmado em experimentos in vitro, onde células T extraídas de animais com dieta rica em gordura apresentaram maior propensão a se tornarem Treg quando estimuladas.
Outro achado relevante foi a influência epigenética da dieta. Células T de animais com dieta rica em gordura mostraram alterações na metilação do DNA, especialmente em genes como Map3k11, associado à modulação da inflamação. Isso indica que a dieta não apenas influencia a resposta imunológica no momento, mas pode alterar o comportamento futuro das células imunes por meio de reprogramação genética.
O estudo também destaca que apenas reduzir os carboidratos não é suficiente. Camundongos alimentados com uma dieta rica em proteínas e com pouco carboidrato, mas com teor moderado de gordura, apresentaram sintomas intermediários da doença. Isso sugere que a substituição dos carboidratos por gordura, e não por proteína, é mais eficaz para promover tolerância imunológica.
Os resultados fornecem uma nova perspectiva sobre o papel da dieta na prevenção e no controle da esclerose múltipla. Diferentemente da maioria dos estudos anteriores, que focavam em dietas cetogênicas aplicadas após o início da doença, este estudo demonstra que a manipulação dietética antes da indução da doença pode prevenir completamente seu desenvolvimento em modelos animais. O diferencial foi o uso de dietas isocalóricas bem controladas, eliminando fatores de confusão como obesidade ou desbalanço energético.
Embora mais estudos sejam necessários para validar esses achados em humanos, os dados sugerem que dietas com alto teor de gordura e baixo de carboidrato podem representar uma estratégia segura e econômica para prevenir doenças autoimunes como a esclerose múltipla. Além disso, o estudo abre portas para o uso da nutrição como ferramenta de modulação imunológica em outras doenças inflamatórias crônicas.
Em tempos em que a ciência busca alternativas complementares aos tratamentos farmacológicos, essa pesquisa destaca o poder da nutrição como uma aliada na promoção da saúde imunológica. Com o avanço das investigações, é possível que no futuro a composição da dieta seja considerada uma peça central na prevenção e tratamento das doenças autoimunes.
Fonte: https://doi.org/10.1002/advs.202412236
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